A REPÚBLICA DOS NETOS
Durante muitos anos, ouvi dizer que crianças dão trabalho. Hoje igualmente posso confirmar. É verdade. Dão trabalho mesmo. Mas também dão espetáculo.
Neste final de semana, nossa casa recebeu novamente uma pequena invasão organizada: nove netos e netas, entre quatro e quatorze anos, enquanto seus pais participavam de encontros, retiros, serviços e atividades da Igreja.
Quando a última mala entrou pela porta, eu e a Cida nos entreolhamos. Sabíamos exatamente o que estava por vir. Barulho. Movimento. Perguntas. Copos espalhados. Toalhas fora do lugar. Pedidos de lanche. Negociações diplomáticas sobre televisão, videogame e lugares à mesa.
Enfim, a instalação oficial da República dos Netos.
Mas algo curioso aconteceu. A República funcionou. E funcionou surpreendentemente bem: os maiores começaram espontaneamente a cuidar dos menores; na mesa, cediam lugares; na hora de servir a comida, perguntavam primeiro aos pequenos.
Nos momentos de brincadeira, ensinavam regras, dividiam controles, organizavam times e resolviam conflitos com uma sabedoria que nem sempre encontramos entre adultos.
Quando chegava a hora do banho, os menores tinham preferência.
Quando chegava a hora de dormir, ninguém parecia disposto a abandonar ninguém.
Havia sempre alguém ajudando alguém. Como numa pequena aldeia. Ou numa família. Aliás, principalmente numa família.
A caçulinha assumiu uma missão muito particular, organizou a fila dos abraços na bisavó. Não era uma atividade obrigatória. Mas ninguém ousava faltar.
E lá iam todos, um após o outro, distribuindo carinho, risadas e apertos sinceros naquela senhora que observava tudo com os olhos brilhando mais do que os nossos.
No Domingo, resolveram que todos iriam à Missa das Crianças. Todos. Sem exceção. Foi preciso usar dois carros.
Enquanto dirigíamos, eu pensava que talvez aquele fosse um dos mais belos sermões que já havia presenciado. Sem palavras. Sem microfone. Sem homilia. Apenas crianças caminhando juntas para encontrar Deus.
Houve também a famosa noite dos hambúrgueres. Outro capítulo memorável: organizaram uma comissão, fizeram lista, anotaram pedidos, elegeram representantes, discutiram prioridades e aprovaram o documento final.
Confesso que o processo foi tão elaborado que, por alguns instantes, pensei estar diante de uma modelo eficiente de CPI – comissão parlamentar infantil.
Quando retornamos com os lanches, entretanto, percebemos uma razoável redução intrigante na quantidade de batatinhas fritas, as apetitosas fries. Mistério jamais esclarecido, mas o caso permanece sob investigação.
Porém a principal descoberta daquele final de semana não aconteceu na mesa, nem na sala, nem na fila do banho e nem na Missa. Aconteceu dentro de nós.
Enquanto “alguns” pais e mães talvez estivessem preocupados com o trabalho que seus filhos estariam dando aos avós, nós estávamos ocupados demais admirando o que eles estavam nos ensinando.
Porque entre uma brincadeira e outra, entre um lanche e outro, entre uma corrida e outra, fomos percebendo algo muito bonito:
A família continua funcionando. O amor continua sendo aprendido. A bondade continua sendo transmitida. A fé continua encontrando novos corações. E a esperança continua crescendo.
Às vezes achamos que estamos cuidando dos netos, mas talvez não seja exatamente isso. Talvez eles também estejam cuidando de nós:
Lembrando-nos que a vida é mais simples do que parece. Que a alegria cabe numa mesa cheia. Que um abraço continua sendo uma das invenções mais brilhantes da humanidade. E que Deus, de vez em quando, gosta de transformar uma casa comum numa pequena escola de fraternidade.
Ao final do Domingo, quando cada um voltou para sua casa e o silêncio reapareceu. Mas não durou muito, porque ficaram as lembranças, as risadas, os abraços, as histórias e uma certeza que eu e a Cida compartilhamos sem precisar dizer uma única palavra:
Se isto dá trabalho, que Deus continue nos dando trabalho por muitos e muitos anos.

