AS LÁGRIMAS E O ALGORITMO

Praticamente na mesma semana, duas mortes.

Um cachorro, espancado, virou comoção nacional. Fotos, homenagens, velas digitais, textos longos, hashtags indignadas. Gente que nunca o viu escrevendo “descansa em paz” com sinceridade e lágrimas nos olhos.

Quase ao mesmo tempo, uma freira de 82 anos, com 55 de vida religiosa, foi assassinada no pátio do convento onde morava. Silêncio breve. Manchete rápida. Comentários escassos. Pouca partilha. Nenhuma onda.

Não é que o cachorro não merecesse compaixão. Merecia. Animais não escolhem a violência que sofrem. A indignação diante da crueldade é sinal de que ainda sentimos algo. O problema não é amar os bichos.

O problema é esquecer as pessoas.

A freira não tinha perfil nas redes. Não rendia foto emocionante. Não gerava campanha organizada. Sua vida foi discreta: alimentar galinhas, rezar em silêncio, servir comunidades pequenas, ensinar, cuidar. Nada disso viraliza. Nada disso “engaja”.

O cachorro tinha imagem. Tinha rosto. Tinha nome curto e fácil. Tinha narrativa pronta para a indignação imediata. A freira tinha história – mas história dá trabalho. Exige memória. E memória não combina muito com a pressa do feed.

Talvez estejamos ficando especialistas em comover-nos com o que cabe na tela e esquecendo o que exige reverência.

Talvez estejamos reagindo ao que é compartilhável, não ao que é verdadeiramente grave.

Um animal maltratado nos choca – e deve chocar.

Mas uma vida humana assassinada deveria nos desestruturar.

Não se trata de comparar sofrimentos como se fossem competição. Trata-se de hierarquia de valores. De escala de importância. De perguntar se nossa compaixão está sendo guiada pelo coração ou pelo algoritmo.

Quando a morte de uma mulher consagrada, que dedicou décadas a servir, passa quase despercebida, algo em nós está anestesiado.

Não é que o cachorro valha mais que a freira.

É que talvez estejamos mais treinados para reagir ao que é simples, imediato, emocionalmente fácil – e menos preparados para honrar o que é silencioso, complexo e humano.

O que nos falta?

Talvez profundidade. Talvez memória. Talvez gratidão. Talvez humanidade.

A compaixão verdadeira não exclui ninguém – mas também não perde o senso de proporção.

Porque, se chegarmos ao ponto em que uma vida humana doada ao próximo não nos comove mais do que um episódio viral, então não será apenas uma freira que estaremos perdendo.

Estaremos perdendo a nós mesmos.

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