Depois do apito final

Dizem que a Copa do Mundo termina quando o árbitro apita pela última vez.
Acho que não. Na verdade, ela começa exatamente ali.
Dentro das quatro linhas, vencem onze.
Fora delas, às vezes vencem milhões.

O Brasil foi eliminado cedo. E doeu.
Sempre dói, porque o brasileiro não assiste apenas ao futebol:
Ele se vê jogando, sofre junto, abraça desconhecidos, interrompe reuniões.
Muda horários. Veste camisas. Discute escalações. Faz promessas.
Reza e acredita.

Mas, curiosamente,
esta talvez tenha sido uma das Copas em que menos me lembro dos gols.
Lembro-me das pessoas. Lembro-me dos japoneses recolhendo o lixo das arquibancadas, como se o estádio fosse a sala de sua própria casa.

Lembro-me de um pequeno país chamado Curaçao comemorando um único gol como quem havia conquistado o universo.
Lembro-me de um treinador de cabelos brancos chorando, não pela derrota, mas porque finalmente enxergava um sonho antigo acontecer diante de seus olhos.

Lembro-me de jogadores adversários ajoelhados no mesmo gramado,
agradecendo ao mesmo Deus.
Lembro-me de atletas que preferiram um abraço a uma discussão.
De um gol dedicado ao companheiro machucado.
De seleções inteiras rezando antes de comemorarem.

E então comecei a pensar: Talvez o futebol nunca tenha sido apenas futebol.
Talvez seja uma gigantesca escola onde, de tempos em tempos,
a humanidade resolve matricular-se.

Ali aprendemos que nem toda derrota é fracasso. Que nem toda vitória merece aplausos. Que há povos que descobrem sua grandeza antes mesmo de levantar uma taça. Que uma criança passa a acreditar em seus próprios sonhos quando vê alguém parecido consigo chegar onde ninguém imaginava.

Na verdade, as maiores vitórias desta Copa talvez nem apareçam na tabela.
Não cabem no placar. Não entram nas estatísticas. Não rendem chuteiras de ouro.

Mas permanecem na memória, porque ninguém esquece um povo que canta mesmo perdendo; ninguém esquece um adversário que consola o outro; ninguém esquece um estádio inteiro que termina mais limpo do que começou; ninguém esquece homens fortes que não têm vergonha de dobrar os joelhos para agradecer.

Quando a Copa acabar, alguém levantará um troféu.
Mas, alguns anos depois, poucos lembrarão exatamente do resultado daquela final.

Em compensação, muita gente ainda contará aos filhos sobre o dia em que viu uma pequena ilha acreditar que também pertencia ao mundo.
Sobre o goleiro que conduziu sua equipe à oração.
Sobre a torcida que preferiu recolher papéis em vez de deixá-los no chão.
Sobre o abraço que venceu uma discussão.

Talvez seja justamente isso que chamamos de esporte.
Uma disputa que termina.
Mas deixa valores que continuam jogando dentro de nós.

No fundo, penso que Deus gosta dessas pequenas cenas.
Porque, enquanto nós contamos gols, Ele talvez esteja contando gestos.

E suspeito que, na classificação do Céu, eles sempre valem muito mais.
Eis que, enquanto nós contamos gols, Deus talvez esteja contando gestos.

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1 comentário em “Depois do apito final”

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