Existe uma verdade profundamente constrangedora sobre o ser humano: quase ninguém se acha ingrato!
As pessoas se acham cansadas. Injustiçadas. Sobrecarregadas. Mal compreendidas. Mas ingratas? Raramente!
Porque a ingratidão é uma dessas coisas que sempre moram no coração dos outros e nunca no nosso. E talvez por isso a Bíblia tenha sido tão honesta quando descreveu a humanidade como: “um povo de cabeça dura”.
Não era apenas Israel. Era a sogra. O marido. A esposa. O filho. O coordenador da pastoral. O amigo do grupo. O sujeito que escreve “gratidão” no final do e-mail depois de quase lhe causar um AVC emocional. Somos nós. Todos nós!
Outro dia fiquei pensando nisso, enquanto observava uma cena absolutamente banal: alguém fazia um esforço sincero para ajudar e um outro alguém corrigia o jeito da ajuda. Um terceiro sequer percebia o esforço envolvido. E, no fim, todos continuavam alí, se relacionando, se ajudando… ainda que meio irritados. Achei aquilo profundamente humano.
Porque a convivência é um negócio curioso: as pessoas raramente agradecem exatamente do jeito que imaginamos.
Às vezes um sujeito passa o dia inteiro tentando agradar… e recebe em troca: “Não precisava fazer desse jeito”. Pronto. Acabou-se a canonização imaginária.
O problema é que nós temos uma tendência perigosíssima: transformar gratidão em moeda emocional. Fazemos algo esperando reconhecimento invisível.
Esperamos: o olhar, a frase, a valorização, a percepção, o “sem você eu não conseguiria”.
Mas o ser humano quase nunca entrega o roteiro completo que imaginamos. Porque o outro também está cansado. Também está ferido. Também está tentando sobreviver. Também está carregando batalhas que não sabemos.
E então começam as pequenas tragédias domésticas da humanidade: silêncios, ressentimentos, ironias, cobranças delicadamente agressivas, “nãos” atravessados, gentilezas contabilizadas no imposto de renda emocional. E tudo isso porque alguém queria apenas ser visto.
No fundo, talvez a maior pobreza humana não seja financeira. Talvez seja esta: a dificuldade de reconhecer o amor cotidiano. Porque o amor raramente chega em forma épica.
Ele chega lavando uma louça sem avisar, abastecendo o carro, separando um remédio, esperando acordado, oferecendo a última fatia, desligando a luz do corredor, ou perguntando: “Você já comeu?”
Mas nós somos um povo de cabeça dura. Queremos fogos de artifício. Enquanto Deus continua agindo em pequenas delicadezas.
E talvez por isso o excesso de “gratidão” também soe estranho hoje. Porque a palavra ficou grande… e o gesto ficou pequeno. As pessoas escrevem “gratidão” como quem assina boleto.
Mas a gratidão verdadeira quase nunca faz discurso. Ela aparece: no jeito de olhar, na permanência, na paciência, na lealdade, no retorno, no cuidado silencioso. E talvez o mais difícil de tudo seja justamente isto: continuar se relacionando mesmo quando o reconhecimento não vem na embalagem esperada.
Aliás, Deus deve entender profundamente desse assunto. Porque, convenhamos: se existe alguém que faz diariamente coisas extraordinárias por criaturas ingratas… é Ele. Veja que, ainda assim, o sol nasce, a mesa continua posta, a misericórdia reaparece toda manhã, e o céu não desiste da humanidade.
Mesmo conosco reclamando do feijão. Do trânsito. Da política. Da vida. Do outro. E até das pessoas que mais amamos.
No fim das contas, talvez maturidade seja isto: aprender que a gratidão perfeita precisa ser aprendida.
Com efeito, somos apenas seres humanos atrapalhados… tentando amar uns aos outros… com suas durezas, seus exageros, seus silêncios, suas carências, e suas cabeças duras. E, apesar disso tudo, queremos continuar sentados à mesma mesa. É ou não é?

